fonte: O Globo
O Aedes aegypti voltou. Depois de dois janeiros de pouca chuva e, consequentemente, um número pequeno de casos de dengue, o mosquito que transmite também a chicungunha e a zika está proliferando novamente. Em janeiro deste ano, foram 293 casos registrados de dengue na região da chamada Área Programática 4 (AP 4), que abrange Barra, Recreio, Jacarepaguá e Vargens, o maior índice de toda a cidade. Em segundo lugar vem a AP 3.3, que abrange Irajá, Pavuna, Anchieta e Madureira, com 187 casos. A região da Barra, historicamente, registra muitos casos de dengue. De acordo com dados da Secretaria municipal de Saúde, foram 63 mortes pela doença de 2000 a 2016. A região, que tem 910 mil habitantes, a segunda maior população da cidade, dividiu o primeiro lugar no número de óbitos com a AP 3.3, que tem 943 mil habitantes, de acordo com o Censo de 2010.
No condomínio Condado de York, em Vargem Grande, a luta contra o Aedes já é parte do dia a dia. O advogado Rogério Goulart caiu doente há cerca de um ano. Ficou uma semana em casa, com o diagnóstico de dengue. Ele não sabia então que a doença voltaria a ganhar força no final do ano passado e que sua mulher, Regina, seria acometida tanto por dengue como por zika.
— Além da minha mulher, temos um vizinho com zika e outro com dengue. O problema é que aqui tem muito espaço para o Aedes proliferar — conta Goulart.
Ele aponta como principais responsáveis por isso os cerca de 60 terrenos vazios no condomínio, onde a grama costuma ficar alta e são jogados entulho e materiais de construção. Regina, por sua vez, considera que o problema é exacerbado pela precariedade do sistema de saneamento nas Vargens.
— Não me considero plenamente recuperada da dengue e da zika — diz. — Vi na TV que há cem milhões de brasileiros sem saneamento básico, e nós estamos entre eles.
Goulart afirma que já procurou o poder público, por meio do 1746, para resolver a situação. A prefeitura, por sua vez, afirma que foi ao terreno e realizou os serviços que poderiam ser feitos. Segundo o assessor da coordenadoria de Atenção Primária da Secretaria municipal de Saúde, Rogério Bittencourt, a construtora Caetano Belloni, responsável pelos terrenos, será intimada a cuidar do espaço adequadamente. Procurada, a empresa diz que dá à prefeitura total acesso aos canteiros de obra e que vem adotando todas as medidas que o município recomenda.
Enquanto a dengue avança, moradores se protegem como podem.
— Eles não me mordem mais porque passei a tomar pastilhas de alho — garante Goulart.
Um de seus vizinhos foi além. Dos Estados Unidos, o engenheiro Nathan Medeiros traz lampiões que atraem e queimam mosquitos.
— Eles duram cerca de um ano. Como todo ano vou aos Estados Unidos, trago dois sempre. Eles ficam pretos, de tanto mosquito que morre — conta Medeiros.
Ele não para por aí. Bota inseticida na grama e frisa que sua casa está num nível pouco acima do da rua, o que faz a água escorrer, impedindo o acúmulo.
O diretor técnico da Associação Brasileira de Controle e Vetores de Pragas (ABCVP), Marcelo Cunha, avalia que a população tem criado estratégias para se defender.
Segundo ele, por mais pitorescos que sejam pílulas de alho, gotas de própolis e outros produtos naturais, há um fundamento:
— O cheiro que exala do corpo de quem usa esses produtos afasta o mosquito. Nunca participei de um estudo comprovando que esse tipo de coisa funciona, mas é coerente com a biologia do mosquito.
PISCINAS PREOCUPAM
No Recreio, uma preocupação é que o Aedes aegypti se instale nas piscinas de terrenos abandonados. De sua janela, Conceição Alves costuma observar, apreensiva, uma desas residências vazias, na Rua Sérgio Branco Soares.
— Isso está assim há mais de um ano, desde que a casa foi vendida — diz. — Começaram a jogar material de obras ali, que acumulam água quando chove.
De acordo com ela, a piscina tem frequentemente água parada e suja.
— Na semana passada, até vieram aqui e usaram uma bomba para esvaziar a piscina. Mas não conseguiram tirar toda a água, e, desde então, choveu bastante. Já tem água de novo lá — conta ela.
A quilômetros dali, o lutador de MMA Felipe Nilo, morador do Brisa do Pontal, caiu doente em janeiro.
— Foram dez dias tomando banho gelado para baixar a febre. Meu corpo doía tanto que parecia que eu tinha levado uma surra — conta o atleta, que se preocupa com os terrenos vazios ao redor do condomínio.
Para o diretor técnico da ABCVP, Marcelo Cunha, o principal entrave no combate ao Aedes no Recreio e na Barra é o fato de os ovos do mosquito poderem sobreviver por até um ano, mesmo sem receber água. Isso explicaria o fenômeno ocorrido na AP4, que teve só 12 registros de dengue em janeiro do ano passado e 293 um ano depois.
— O problema não é a dona de casa do Recreio que se esqueceu de esvaziar a vasilha de água — avalia ele. — É necessário o uso do fumacê e de métodos para matar o mosquito adulto. Só visitar os imóveis não resolve.
Assessor da Coordenadoria de Atenção Primária da Secretaria municipal de Saúde (SMS), Rogério Bittencourt reconhece que o grande número de terrenos baldios e casas vazias nos bairros da região dificulta a luta contra o Aedes aegypti.
— Muita gente que tem casa na Barra e no Recreio sequer vive no país. Chegar a essas pessoas é muito difícil. O que podemos fazer é entrar compulsoriamente no imóvel, caso até a terceira visita não encontremos ninguém — explica.
O técnico enfatiza que foram feitas mais de mil visitas este ano na AP4. Bittencourt chama a atenção ainda para o serviço que é prestado por meio de fumacês:
— Não é só o Aedes. A Barra e o Recreio têm muitos mosquitos e pernilongos. Quando há uma solicitação de fumacês por meio do 1746, fazemos uma análise e enviamos o veículo, se necessário.
Segundo a SMS, a maior parte dos focos de dengue está em áreas residenciais, o que motiva ações rotineiras de caráter educativo. Em caso de visita a locais com acúmulo de lixo, a SMS já comparece acompanhada de agentes da Comlurb. Caso o material abandonado seja de obras, a orientação é que os moradores liguem para o 1746. Nos casos em que encontra água parada que não é usada para consumo humano, a SMS pode utilizar larvicida ou fazer o controle biológico por meio dos peixes barrigudinhos, que se alimentam das larvas do Aedes.