fonte: O Globo
Num quadro de dificuldades, a inércia não é uma boa resposta. Se a crise econômica é evidente e grave, soluções devem ser elaboradas. Na Barra, pensando assim, empreendedores de diferentes segmentos da socidade têm se mobilizado para reagir. A grande quantidade de eventos promovidos por shoppings, hotéis e associações explicita a estratégia de estabelecer um calendário de ações e iniciativas como alternativa para movimentar o mercado e atrair público.
Ao pensar na matriz econômica da Barra, o debate passa obrigatoriamente pelos shoppings. E, diante da queda geral de consumo, foi preciso tomar providências. A tendência de apresentar os centros comerciais também como espaços de experiências, e não somente de compras, passou a ser mais explorada. Desde o início do ano, os principais estabelecimentos do bairro foram tomados por festivais de cerveja, feiras gastronômicas, conferências, simpósios e uma enxurrada de liquidações.
Superintendente do Via Parque, Marcio Araújo define a promoção de eventos como uma necessidade:
— Os eventos geram mais fluxo e trazem mais vendas. Os shoppings estão investindo muito em cultura, entretenimento e gastronomia, e não só no varejo.
Nos últimos meses, o Via Parque foi um dos estabelecimentos da região que promoveram eventos em série. Para o segundo semestre, há boas novidades programadas, como uma mostra da Casa do Saber, que terá palestras mensais a partir de setembro, e a reforma do espaço infantil. Já em funcionamento, o parque de diversões Play City ficará no estacionamento até outubro.
Localizado numa área estratégica — está cercado por diversos terrenos ainda baldios, mas com destinos já definidos — , o Via Parque tem se preparado para o aumento da demanda, explica Araújo, principalmente na área gastronômica. Nos próximos meses, restaurantes serão inaugurados — incluindo uma unidade da pizzaria Fiammetta, em outubro, e outra do Gula Gula, em novembro —, e a praça de alimentação será reformada no início de 2018.
— Há um potencial muito grande de adensamento aqui perto, residencial e comercial. A perspectiva é positiva, há muita coisa parada, mas já com projeto desenvolvido. Quando houver os lançamentos, já estaremos prontos para a demanda. Só depende de um primeiro suspiro da economia — diz o executivo, acrescentando que o shopping foi beneficiado pela mudança do escritório da operadora TIM para uma área vizinha, no ano passado.
Se parece não ser um bom momento para inaugurar grandes empreendimentos, o Uptown está aí para mostrar que cada caso é um caso.
— Quando eu comprei o terreno, em 2011, o Cristo estava decolando. Quando o espaço ficou pronto, o Cristo já estava na lama — brinca Schalom Grimberg, sócio do Uptown, em referência às capas da revista “The Economist” sobre os diferentes momentos econômicos do país.
O resultado tem ficado acima do esperado, garante Grimberg. Atualmente, entre 40% e 50% do espaço estão ocupados, ou seja, ainda há muito a crescer, mas os números são animadores. No primeiro semestre de 2017, o faturamento do empreendimento, inaugurado no ano passado, cresceu 50%, e, no estacionamento, a média é de 2.700 carros por dia. O grande ativo é o Mercado dos Produtores, que reúne restaurantes tradicionais, como o La Plancha, e quiosques, que vendem de peixes a produtos orgânicos. No fim de agosto, um elevador será inaugurado, e lojas começarão a ser abertas no segundo andar.
— Em um fim de semana chegamos a receber 20 mil pessoas. Funcionários da Riotur já vieram aqui, e ficou decidido que vamos entrar no circuito oficial do turismo do Rio — diz Grimberg, que também destaca outros espaços do Uptown, como o Feirão da Moda Barra, com lojas tradicionais de Petrópolis; a Papelaria Caçula; e a loja Relíquias do Brasil como trunfos.
O Uptown é outro shopping que aposta em eventos. São vários por mês, como a “Tarde dançante”, as feiras de antiguidades, artesanato brasileiro e adoção de animais e um evento para noivas e gestantes. Em setembro, na onda do Rock in Rio, é possível que haja festas relacionadas ao festival.
— Fazer evento virou quase obrigação. Estou tirando leite de pedra, inventando o que a Barra não tem. Agora quero investir mais no público infantil — explica Grimberg, que aguarda com otimismo a retomada do crescimento econômico. — A expectativa é o Brasil não derreter mais. Se a situação fosse boa, nós estaríamos ainda melhor. Mas é possível atrair lojistas. Aqui temos casos de engenheiros e empreiteiros que perderam espaço no mercado e resolveram abrir quiosques de comida.
Embora conhecido como uma das referências no mercado de decoração, o CasaShopping também tem se reinventado. Seu diretor de marketing, Eduardo Machado, explica que no espaço do primeiro piso onde será inaugurado o mercado de produtos orgânicos Organomix, em outubro, está sendo implantada uma área de bem-estar. Ali já há uma academia de crossfit e um estúdio de pilates. Também está prevsito um cabeleireiro masculino, com tabacaria e estúdio de tatuagem. Do outro lado do shopping, o antigo boliche dará lugar a salas de cinema.
— O CasaShopping está se movimentando para criar um conceito que não envolve só decoração, mas sim fazer as pessoas se sentirem em casa. E a tendência é valorizar sustentabilidade e bem-estar — diz.
Para movimentar o calendário, desde junho a Babilônia Feira Hype voltou a ter edições no shopping. No momento, está em cartaz a mostra de decoração Morar Mais Por Menos. A partir de outubro, haverá o projeto “Essa onda é um show”, com atrações musicais. E, no evento Arte + Design, previsto também para outubro, todas as lojas do shopping se tornarão galerias de arte.
Hotéis criam soluções variadas
Em breve, os visitantes que atravessarem a entrada principal do Città America vão se deparar com o pórtico totalmente reestruturado, feito de alumínio composto, obra ainda em fase inicial. Síndico do shopping desde 2015, José Hernani Campelo explica que, nos próximos meses, quem usar uma das duas escadas rolantes que estão sendo instaladas poderá ver melhor as lojas dos andares superiores, por entre os guarda-corpos envidraçados. A modernização do shopping, inaugurado em 2000, é uma necessidade, afirma.
— Sempre disseram que o Città era shopping vazio, mas queremos mostrar às pessoas que ele mudou, fazer com que percebam que essa fama não é a realidade. Estamos nos modernizando, mas sem deixar o nosso DNA de lado, que é esse clima de natureza: vamos continuar tendo muito verde. Você está coberto e ao mesmo tempo descoberto, você vê o dia, a noite, sente a brisa do ar — avalia o síndico, que prevê ainda salas de teatro e cinema.
Diversos eventos têm tomado os espaços do shopping, a fim de deixar para trás a fama de inércia. Há dois meses, a festa junina da ABM foi realizada pela primeira vez no Città. No mês seguinte, houve a feira de vinhos Vini Bra Expo. Às vésperas do Dia dos Pais, no evento De Pai para Filho, o jardim do Città foi ocupado por carros antigos, levados pelo Veteran Car Club. O plano, agora, é sediar encontros mensais do grupo no shopping, conta a gerente de marketing Fabia Gomes:
— Com as mudanças, esperamos tornar o shopping mais atrativo para o investidor.
A crise também maltrata a indústria hoteleira, que investiu fortemente no Rio com vistas à Olimpíada de 2016. A média de ocupação na Barra hoje é de 35%, enquanto a da cidade é de 55%, segundo a Associação Brasileira de Indústria de Hotéis do Rio (ABIH-RJ). A saída é realizar promoções tarifárias e oferecer day use, prática já comum no bairro. Eventos também podem ser um diferencial.
Parte do complexo do Riocentro, o Grand Mercure aproveita o potencial do vizinho. Como festas de formatura e de casamento são comuns no centro de convenções, o hotel passou a realizar after parties. Com isso, aumentou a receita com aluguel do espaço e com diárias, já que muitos festeiros optam por dormir lá mesmo.
— Vimos que poderíamos fazer mais com as milhares de pessoas, entre formandos e parentes, que usavam o hotel apenas para se produzirem para os bailes — explica Raphael Martini, gerente-geral do Grand Mercure Riocentro.
Outras iniciativas são a feijoada, que atrai 250 pessoas, em média; e o Grand Sessions, evento mensal que começará este mês, unindo jantar e um show especial.Presidente da ABIH-RJ, Alfredo Lopes endossa a promoção de eventos como uma saída para a crise. Ele lembra que muitos hotéis contam com centros de convenções, o que é um facilitador. Segundo ele, a baixa ocupação é consequência da falta de investimento em promoção e divulgação do turismo após a Olimpíada.
— Hoje temos cerca de 60 mil quartos na cidade, praticamente o dobro do que havia em 2009. Mas, se você dobra a oferta e não faz nada para aproveitar isso, o resultado é óbvio — diz Lopes.
O Rock in Rio, que pela primeira vez ocorre num cenário com grande oferta de hotéis, será explorado pelos empreendimentos. O Windsor Marapendi, por exemplo, será um dos hotéis oficiais do evento. Por isso, quem fizer reserva pelo site do festival ganhará transfer de ida e volta para o show e um kit contendo capa de chuva, boné, ecobag e squeeze.
Outro evento importante para o turismo será o réveillon. Desde 2015, a ABIH-RJ organiza a festividade na Barra, com queima de fogos em coberturas de hotéis. No ano passado, 12 aderiram.
— Queremos, ao menos, manter o número, mas vamos tentar aumentá-lo. Hoje, os hotéis da orla da Barra já estão com 70% dos quartos reservados para a virada, e a tendência é chegar a 90%. O público nacional será o grande mercado, principalmente mineiros e paulistas — explica Lopes, avisando que em outubro haverá uma grande promoção na cidade, com apoio da prefeitura, envolvendo bilhetes aéreos, hotéis e shoppings.
A programação de rua, historicamente fraca na região, sempre foi outra preocupação de Lopes. No ano passado, ele idealizou o Distrito Bossa Nova, festa com música e gastronomia que ocorre mensalmente no coreto da Barrinha.
— Se não tem sol, o que o turista faz na Barra? Vai para o shopping. Mas era preciso algo mais, temos muitas áreas bonitas aqui. Faltava esse tipo de vivência — explica o presidente da ABIH-RJ.
A produção do Distrito Bossa Nova ficou a cargo de Fernando Dias e Janaina Uzai, da produtora Midia Mix. Em setembro, o evento completa um ano.
— Começamos num cenário positivo, de Olimpíada, e agora estamos numa crise. Na Barra há uma forte cultura de feudos; muitos moradores se julgam donos dos quintais, e isso traz dificuldade para fazer eventos nas praças. O Bossa Nova, neste sentido, foi um marco. É a comunidade ocupando a comunidade — define Dias.
O sucesso do Bossa Nova não se traduz somente pelas 600 pessoas que costumam ir, em média, à Barrinha. O evento é replicado no Recreio, na praça do Barra Bonita e ao lado do Shopping Metropolitano. As duas festas, Recreio Boa Praça e Arte na Barra, respectivamente, seguem o mesmo modelo: música, gastronomia, artesanato e entretenimento infantil. Os planos, agora, são de expansão para Campo Grande e Ilha do Governador. Depois do apoio inicial da ABIH-RJ, hoje a ajuda de custo vem em grande parte de patrocínios de empresas locais.
Mas isso não significa que as dificuldades acabaram. Janaina admite que o alto custo é um problema. Por isso, há possibilidade de os eventos passarem a ser bimestrais, em vez de mensais. O importante, diz, é que a cultura conseguiu proporcionar, além do lazer, a revitalização da região.
— O Largo da Barrinha estava abandonado, tinha morador com medo de passar por lá. Esta é uma região linda, embaixo da Pedra da Gávea, e com vários restaurantes históricos. Um potencial turístico que, quando for mais bem explorado, vai bombar — aposta Janaina.