fonte: O Globo
Entre os aspectos negativos de 2016 para o Rio estão a crise financeira e o aumento da violência. Diante desse quadro, moradores da Barra e do Recreio decidiram que era hora de agir e criaram projetos para tentar melhorar a segurança da região. Inaugurada há um mês, a central de monitoramento da Associação Comunitária Bairro Seguro (ACBS) reúne câmeras da prefeitura, e, em breve, de associados, para registrar casos de assalto e, assim, contribuir com investigações da polícia e alertar a população. Outra iniciativa é a reivindicação de que o bairro passe a contar com a operação Barra Presente, garantindo a intensificação do patrulhamento inclusive nas ruas internas. Na semana passada, houve uma reunião entre a Associação dos Moradores e Amigos do Tijucamar e Jardim Oceânico (Amar) e os responsáveis do projeto Segurança Presente, já já realizado no Centro, no Aterro, na Lagoa e no Méier, para tratar do assunto.
A central de monitoramento é fruto de reuniões e fóruns de segurança da sociedade civil, e teve aporte de entidades como a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), a Câmara Comunitária da Barra e a construtora Carvalho Hosken. Desde setembro de 2015 o projeto já vinha sendo discutido, principalmente pela percepção de que, à falta de recursos para o policiamento ostensivo, é preciso investir no trabalho de inteligência. Para dar continuidade à ideia, foi criada a Associação Comunitária Bairro Seguro. Assim, condomínios, hotéis e shoppings se uniram formalmente e passaram a contribuir para a montagem e a operação da central.
Inaugurada em 7 de novembro, a central funciona 24 horas por dia, com revezamento entre quatro plantonistas. Há ainda um analista na coordenação. O sistema funciona com base num software desenvolvido para o projeto, que exibe, na tela, o mapa da região sob responsabilidade do 31º BPM e imagens das câmeras em funcionamento. Por enquanto, há 70 câmeras ativas, todas da prefeitura, monitorando a área, mas, ainda este ano, as câmeras dos associados começarão a ser instaladas, explica Rodrigo Taveira, sócio do Grupo Unicad, empresa contratada para desenvolver e implantar a central:
— A ideia foi integrar imagens da região. As associações da Barra se juntaram e concluíram que precisavam de mais segurança. O primeiro objetivo, então, era melhorar o monitoramento. Com nosso programa, as imagens de todas as câmeras ficam reunidas num servidor. A prefeitura nos disponibiliza material e nós forneceremos nossas imagens para eles.
O monitoramento tem duas funções principais: o alerta aos associados, após o flagrante de um caso de assalto ou outro tipo de violência, e o fornecimento de imagens para a polícia. Hoje, os membros do grupo recebem informações via SMS, mas um aplicativo será lançado em breve para aumentar a capilaridade do sistema. Com ele, moradores dos condomínios associados poderão ter acesso às imagens e aos alertas da central. Além das câmeras, o monitoramento inclui acompanhamento das notícias nas redes sociais e na imprensa, explica Taveira.
— Nós precisamos separar o joio do trigo. É humanamente impossível observar todas as câmeras simultaneamente, e a internet nos ajuda a fazer uma filtragem. Nós só disseminamos alertas depois da confirmação da ocorrência, especialmente pela mídia. Enviamos então mensagens para se evitar uma região específica, por exemplo. Por outro lado, também conseguimos desmentir informações falsas, a partir das imagens. É a sociedade civil organizada trabalhando para ela mesma — diz Taveira.
Algumas questões em relação ao projeto ainda estão em discussão dentro da ACBS, como a possível associação de pessoas físicas, independentemente de seus condomínios serem membros da associação, e as mensalidades para a manutenção da central, que devem ficar em torno de R$ 50. É preciso decidir também se o novo aplicativo será pago ou gratuito. Taveira explica que muitos condomínios, shoppings e hotéis já contam com câmeras próprias. O que falta é a padronização e a centralização em um sistema único:
— Hoje, como ninguém organiza, cada síndico tem seu sistema autônomo de monitoramento. Há dificuldades de recuperar imagens para ajudar a investigar um crime, por exemplo. Nossa central terá o diferencial de fornecer rapidamente imagens à polícia.
Assaltos a residências assustam
Conhecido por ser uma área residencial tranquila, o Jardim Oceânico sofreu, recentemente, uma onda de violência, registrando casos, inclusive, de invasões a residências. Oficialmente, foram quatro casos desta natureza na região desde outubro. Moradores, porém, dizem que o número verdadeiro, para além dos boletins de ocorrência, é muito maior.
Esse foi um dos motivos que reacenderam o debate acerca do Barra Presente, projeto que consistiria no incremento do patrulhamento da região, feito com carros, bicicletas, motos e a pé. Nos casos já existentes, há aporte financeiro de empresários e da Fecomércio. Para a Barra, porém, não há previsão, por enquanto, de ajuda privada, e, descrentes de que o governo do estado invista na ampliação do programa, devido à crise financeira, moradores iniciaram um abaixo-assinado, na última segunda-feira, para que a nova gestão da prefeitura arque com os custos de sua implantação na região.
Na semana passada, houve uma reunião, no Palácio Guanabara, entre coordenadores do Segurança Presente, a Amar e o vereador Carlo Caiado. No encontro, as autoridades mostraram sua concepção para o Barra Presente: a ideia seria intensificar a vigilância nas principais vias, como as avenidas das Américas e Ayrton Senna. Os moradores, porém, defendem a implantação da patrulha em núcleos internos, como Jardim Oceânico, Parque das Rosas e ABM. Por isso, hoje, em nova reunião, deverá ser apresentada uma versão modificada do projeto por parte da equipe do Segurança Presente.
— Eles vão nos dar também estimativa de orçamento. Aprovado isso, levaremos à comunidade para que o projeto seja debatido — explica Luiz Igrejas, presidente da Amar, que admite as prováveis dificuldades financeiras. — A Fecomércio já avisou que não tem mais dinheiro, e o estado está falido. Vamos tentar ajuda também de comerciantes, mas nossa intenção é pressionar a prefeitura.
Morador do Jardim Oceânico e ex-administrador regional do Recreio e das Vargens, Marcus Balestieri participou da reunião. Segundo ele, o patrulhamento ostensivo nas principais vias deve ficar a cargo da PM:
— Já existe uma companhia destacada da PM na Ayrton Senna, por exemplo. O Segurança Presente tinha um projeto pronto, mas não era o que queríamos. Precisamos de patrulhamento nas ruas internas, no Recreio também.
Dois dias antes da primeira reunião no Palácio Guanabara, o Jardim Oceânico teve um fórum de segurança pública ao qual estiveram presentes mais de 500 pessoas. A lotação do evento se explica pelo “desespero” dos moradores, diz o jornalista Rodrigo Vieira, cujo prédio foi um dos invadidos por bandidos recentemente. Numa madrugada de outubro, dois homens entraram no apartamento de sua vizinha, na Rua Belisário Leite. No mesmo mês, a notícia sobre um outro caso se espalhou pelo bairro (veja depoimento da vítima na página ao lado).
— No caso da minha vizinha, eram mais ou menos 3h da manhã. A sorte é que o porteiro chegou, e os criminosos se assustaram e fugiram apenas com alguns eletrônicos pequenos. A televisão, por exemplo, ficou no meio do corredor — conta Vieira, que, após o ocorrido, procurou mobilizar os vizinhos, o que resultou na criação de um grupo de WhatsApp. — Trocando informações, vimos que as invasões aconteciam a cada três dias mais ou menos. Sabemos de ao menos 15. Felizmente, a polícia começou a agir depois das nossas reclamações e efetuou uma série de prisões. Mas, à noite, ainda é perigoso andar na rua. Eu não saio mais com carteira; no máximo, com celular. Há muitas duplas de moto praticando assaltos.
Segundo moradores, as ruas mais vulneráveis do Jardim Oceânico são Alda Garrido, Gilberto Amado, Belisário Leite e Fernando Mattos.
— A Gilberto Amado é a rua do canal, então é mais fácil abordar uma vítima, porque ela não tem como mudar de calçada e fugir. Já a Fernando Mattos é a rua do metrô, e muita gente circulando atrai trombadinhas. Um problema grave é a falta de poda das árvores, que acabam bloqueando a iluminação e deixando essas vias escuras e mais perigosas — afirma Balestieri.
O comandante do 31º BPM, Sergio Schalioni, diz que desde o fórum de segurança, no último dia 29, o policiamento no Jardim Oceânico foi reforçado.
— Não tivemos mais casos de invasão depois disso. Investigamos as quadrilhas que praticavam o crime e sete pessoas, todas da Rocinha, foram presas — explica o comandante, que também diz ver com “bons olhos” o Barra Presente. — Se é bom para a comunidade e reduz os índices de criminalidade, não há por que ser contra.
No Recreio, a violência também é uma queixa comum. Uma moradora diz que há relatos diários de assaltos nas ruas:
— Recentemente, um visitante foi rendido na porta do meu prédio, quando estava entrando na portaria. O assaltante estava de bicicleta, armado, e levou seu carro. Não foi um caso isolado: há muitos roubos de bicicletas dentro das garagens e assaltos com armas; não importa o horário.
De acordo com o Instituto de Segurança Pública (ISP), em outubro, último mês com dados atualizados, houve na região do 31º BPM registros de 249 roubos e 522 furtos.
“Graças a Deus meu filho estava dormindo comigo”
“Recentemente, cheguei à minha casa, no Jardim Oceânico, com meu marido, por volta das 23h. Acordamos meu filho com o barulho, e ele pediu para dormir no nosso quarto. No dia seguinte, ao acordarmos, percebemos que o apartamento havia sido invadido. O armário do quarto do meu filho estava aberto, e algumas roupas haviam sumido, assim como eletrodomésticos da cozinha. Pastas e notebooks estavam espalhados pelo meio do caminho.
No momento da ação, nenhum de nós ouviu nada, nem acordou. Não temos ideia de por que interromperam o assalto. Eles entraram pela porta do terraço do apartamento, que é uma cobertura. Provavelmente, pularam prédios, de laje em laje, até acharem um alvo. Como o quarto do meu filho é o primeiro da casa, foi desse cômodo que levaram mais coisas. Apesar do desespero com a situação, nesse tempo todo eu só consigo pensar que graças a Deus meu filho estava, por acaso, dormindo comigo, e então nada de grave aconteceu. Mesmo com a insegurança, fico pensando que fui protegida; não consigo ter outro sentimento. Uma energia permitiu que nenhuma tragédia ocorresse.
Perguntei, no dia seguinte, se o vigilante noturno do prédio havia percebido alguma coisa, e ele disse que não. Tomamos todas as medidas necessárias para melhorar a segurança tanto na rua como no edifício. De outubro para cá, houve invasões a residências do Jardim Oceânico todas as semanas, literalmente. O quadro só melhorou na semana passada, depois da reação da polícia. Conseguiram prender os criminosos que comandavam as ações, e agora estamos com bastante policiamento na área. Me parece que as ocorrências diminuíram.
Moro aqui há muitos anos e conheço vizinhos que vivem aqui há três décadas. Eles dizem que houve problemas no passado, principalmente porque a Barra era um bairro bem ermo. Com a construção de prédios e grandes condomínios, houve a criação de guaritas para vigias noturnos, e o índice de criminalidade permaneceu baixo. Nunca tive sensação de insegurança, mas, realmente, este ano está muito difícil. Agora, os moradores estão se dispondo a recolher assinaturas que viabilizem a criação do Jardim Oceânico Presente. Por ser uma região de prédios pequenos, a preocupação com invasões é grande.”
Depoimento em primeira pessoa de uma vítima moradora do Jardim Oceânico.