A Linha 4 do metrô (Ipanema-Barra) entrou na vida dos cariocas em 19 de setembro, após a Paralimpíada — antes disso, funcionou exclusivamente para os Jogos. Mas o horário restrito (das 6h às 21h nos dias úteis) e o fechamento nos fins de semana têm levado muitos moradores a voltar à dura realidade enfrentada antes da nova ligação metroviária: ônibus cheios, intervalos irregulares e engarrafamentos maçantes. O secretário estadual de Transportes, Rodrigo Vieira, argumenta que a concessionária Metrô Rio tem usado os horários fora de operação para fazer testes e finalizar a instalação do sistema de piloto automático (faltam ainda 40% das obras), importante item para manter a segurança e a regularidade no intervalo entre os trens. Ele garante, no entanto, que a Linha 4 poderá ser usada aos sábados já a partir do mês que vem e, aos domingos, em dezembro, quando finalmente será integrada à Linha 1, dispensando a necessidade da baldeação na Estação General Osório, em Ipanema.
— Precisamos desse horário de manutenção. Se não precisasse, a gente já teria tirado. Não é maldade. A concessionária ainda está instalando o sistema de pilotagem automática, que permite a redução dos intervalos de 6,5 minutos hoje para 4,5 ou 4, como na Linha 1, dando mais conforto aos passageiros. Esse sistema é uma pré-condição para a gente integrar a Linha 1 com a Linha 4. Assim como há as reclamações dos usuários, eu também tenho feito um pressão em cima da concessionária para a gente integrar as duas linhas. Fizemos a escolha de dar a eles esse horário do final de semana e também durante a madrugada para que possam concluir a implantação do sistema — explicou.
USUÁRIOS CRITICAM HORÁRIO RESTRITO
Morador da Freguesia, em Jacarepaguá, o analista de planejamento Gabriel Queiroz, de 23 anos, usa a Linha 4 praticamente todos os dias para ir ao trabalho, no Centro. Na quarta-feira,19, saiu mais tarde, às 21h40, e precisou pegar três ônibus na volta para casa. A viagem durou o dobro do tempo que leva indo de metrô.
— No ponto perto do meu trabalho, não passa ônibus com tanta frequência, ainda mais à noite. Eles vivem cheios. Com o metrô, pegaria somente um meio de transporte e chegaria bem mais rápido. Eu poderia até pegar um único ônibus, mas ele faz um caminho mais longo, fica bastante cheio, demora a passar no ponto, e a duração da viagem é muito maior. Se for pegar outras linhas, tenho que fazer baldeação. Então, tem o tempo de deslocamento. É muito perrengue. Ficar uma hora e 40 minutos em pé não é nada agradável. De metrô e pegando depois um ônibus ou um BRT, faço o trajeto em uma hora e 15 minutos — contou.
As queixas em relação ao fechamento da Linha 4 constam também na página do Facebook da concessionária. Indignado, um usuário escreveu: “Gastaram uma dinheirama e não funciona sábado e domingo. O pior é que ninguém avisa antes de você embarcar dentro da estação. Chateado! Chocado com esse absurdo! Durante a Olimpíada funcionou, os gringos se foram e nós (estamos) aqui sem poder ir para a Barra no fim de semana de metrô”.
Outro usuário também pediu a abertura nos fins de semana e feriados: “Vocês têm que entender que, nos feriados, eu e muitos trabalhamos, então revise esse horário de abertura, por favor”.
Morador da Ilha da Gigoia, próximo à Estação Jardim Oceânico (a de maior capacidade entre as cinco recém-inauguradas), o publicitário Daniel Lira, de 27 anos, afirma que o fechamento da estação às 21h prejudica os moradores que precisam se deslocar à noite.
— Agora como está, não mudou muita coisa para mim, por causa dos horários e do fechamento no fim de semana. Mas, quando estiver funcionando de forma normal, vai melhorar muito. Vou conseguir calcular melhor os compromissos, usando o metrô, que tem um intervalo mais regular dos que os ônibus — afirmou.
Uma das sócias do Bar do Elias, que tem uma filial na Avenida Olegário Maciel, no Jardim Oceânico, Mariam Ibrahim Mohamed afirma que, em apenas um mês, a Linha 4 ajudou a movimentar ainda mais a região, melhorando inclusive o trânsito na Lagoa-Barra. Segundo ela, com a nova ligação, os funcionários têm até chegado mais cedo ao trabalho.
— Fico brincando com eles que estão chegando mais cedo agora. Melhorou o trânsito, a rua está mais movimentada, o acesso ao bairro está mais fácil. Agora, com o horário de verão, será ainda melhor, porque as pessoas ficam mais tempo na praia — disse.
LÍDER COMUNITÁRIO PEDE PACIÊNCIA
Quando recebe críticas sobre a nova linha, Delair Dumbrosck, presidente da Câmara Comunitária da Barra, pede que os moradores tenham compreensão. Segundo ele, já houve um ganho no atual horário de operação, pois a previsão era que a Linha 4 abrisse ao público somente entre 11h e 15h.
— Não temos recebidos muitas reclamações, mas algumas pessoas têm se queixado do fechamento da Linha 4. Pedimos ao governador (licenciado) Pezão para que ela passasse a funcionar para todo mundo já na Paralimpíada, mas não conseguimos. Ele, no entanto, fez uma promessa de que estudaria algo melhor para depois da Paralimpíada. Em vez de funcionar de 11h às 15h, como previsto, começou a funcionar das 6h às 21h. Então já foi um ganho. O trem precisa de um tempo para ajustes. Acho que temos que entender isso. Se puder antecipar a operação para as 5h, como é na Linha 1, e entrar em funcionamento nos fins de semana, é ótimo. Mas as pessoas precisam ter um pouco de compreensão para que o metrô funcione com segurança. Não adianta começar a operar a pleno vapor e ter acidentes.
O presidente do Clube de Engenharia, Pedro Celestino, também afirma que o início da operação precisa ser gradual e ter um tempo para eventuais manutenções.
— A pressa é inimiga da perfeição. Se a área técnica diz que é melhor parar ou funcionar menos horas para fazer ajustes, isso deve ser feito. É melhor fazer com tempo e organizadamente do que se precipitar e provocar acidentes — avaliou.
METRÔ ANUNCIA FIM DA LINHA DE ÔNIBUS, MAS VOLTA ATRÁS
Enquanto a Estação Gávea, que também faz parte da Linha 4 do metrô, não fica pronta, passageiros que utilizam o serviço de ônibus operado pela concessionária, chamado de Metrô na Superfície, estão apreensivos com uma possível desativação da linha Ipanema-Gávea em dezembro, que chegou a ser anunciada pela Metrô Rio, no mês passado, em sua página no Facebook. Ao responder a uma pergunta de um usuário sobre o assunto, a concessionária disse que o Metrô na Superfície para a Gávea seria mantido somente a partir da Estação Botafogo. Um abaixo-assinado foi criado no site Change.org e já reúne 262 apoiadores, preocupados com o fim do serviço.
Nesta quinta, ao ser questionada pelo GLOBO, a Metrô Rio voltou atrás. Em nota, disse que, no momento, não há previsão de suspensão ou alteração de nenhuma das duas linhas do Metrô na Superfície (Botafogo-Gávea e Ipanema-Gávea). Segundo a concessionária, a média diária de passageiros que utilizam o serviço é de cerca de 20 mil e, caso haja alguma mudança, os usuários serão informados.
O secretário estadual de Transportes, Rodrigo Vieira, disse que a orientação era para que o metrô reduzisse o percurso da linha, que passaria a funcionar a partir da Estação Antero de Quental, no Leblon, e não mais na General Osório, em Ipanema. Segundo ele, essa proposta está sendo discutida entre a concessionária e a Secretaria municipal de Transportes, que também disse que “não há nenhuma mudança prevista nas linhas de Metrô na Superfície”. Vieira tranquilizou os passageiros, dizendo que, se não houver o serviço partindo da Antero de Quental, a operação continuará sendo feita a partir da General Osório.
Autora do abaixo-assinado, a analista de recursos humanos Patrícia Queiroz reclamou da falta de transparência da concessionária.
— Primeiro, dizem uma coisa. Depois, outra. Não dá para acreditar no que prometem, vide o que fizeram com a estação da Gávea, que não ficou pronta. Ficamos inseguros. Com a abertura da estação Antero de Quental, pego o ônibus, salto nessa estação e economizo vinte minutos de viagem. Isso é muito bom. Não podem tirar esse ganho da gente — cobrou.
