fonte: O Globo
Pouco mais de um mês após a abertura da Transolímpica à população, a ViaRio, concessionária que administra o trecho expresso da pista, comemora os resultados: diariamente, já trafegam por ela 35 mil carros, e a expectativa é que em um mês o número chegue a 55 mil, aproximando-se do limite de 70 mil veículos previsto. O tempo de viagem da Avenida Brasil até a Barra, que chegava a duas horas e meia, caiu para cerca de 15 minutos nos 13 quilômetros sob concessão. Apesar dos resultados positivos em mobilidade, os moradores da Barra entendem que alguns ajustes precisam ser feitos. Há quem reclame da insegurança, constatada pelo aumento no número de roubos, e da cobrança de pedágio enquanto obras ainda são feitas no trecho sob responsabilidade da prefeitura.
Nas primeiras semanas de agosto, a Transolímpica funcionou apenas para atender o público da Olimpíada. A abertura à população foi no dia 23 daquele mês, e, desde então, a segurança é a maior preocupação. De acordo com o comandante do 31º Batalhão (Recreio), coronel Sérgio Schalioni, o número de roubos a carros teve um salto da primeira para a segunda quinzena de agosto. Nos 15 primeiros dias do mês, foram registrados oito roubos, contra 30 nos 15 dias subsequentes. Os dados foram apresentados na última reunião do 31º Conselho de Comunitário de Segurança (CCS), realizada há 15 dias, oportunidade na qual as autoridades disseram acreditar que o aumento se deve à operação da Transolímpica, que leva mais pessoas à Barra e ao Recreio e proporciona acesso rápido a Zona Norte, Baixada Fluminense, Arco Metropolitano e rodovias como a Dutra e a BR-040.
— Nós já temos bem mapeada a origem dos nossos meliantes. Por exemplo: quem rouba na Barra? O pessoal da Rocinha e da Cidade de Deus. No Recreio, o meliante é mais (do restante) da Zona Oeste, de Santa Cruz para lá. Agora nós temos uma via nova, que traz criminosos de outras áreas do Rio de Janeiro, como o Morro do Chapadão, na Zona Norte. Eles têm mais facilidade, com a abertura da Transolímpica — disse Schalioni na ocasião.
De acordo com a delegada da 42ª DP (Recreio), Carolina Salomão, também presente ao evento, policiais prenderam um ladrão com dois carros (um comprovadamente roubado no Recreio) que seriam levados para Jacarepaguá; e um receptador, de Jacarepaguá, com quatro veículos roubados em Nova Iguaçu, na Baixada, o que ilustra a situação.
Ao GLOBO-Barra, Schalioni explicou que o trabalho das forças de segurança na região se voltam, no momento, para os reflexos da abertura da Transolímpica:
— Já estamos com mais efetivo e mais operações para evitar a entrada de pessoas que utilizam a Transolímpica e vêm praticar crimes aqui. Nós mudamos o planejamento e conseguimos trazer o número (de crimes) para o aceitável novamente.
Apesar da preocupação, Ricardo Magalhães, presidente do 31º CCS, reconhece os benefícios trazidos pela via.
— A Transolímpica é um caminho necessário. A cidade tem que evoluir, mas precisamos nos cercar de cuidados. Para isso, vamos continuar fazendo as reuniões, convidando também o Batalhão de Policiamento em Vias Expressas (BPVE) — ressaltou.
Um desses cuidados é solicitar à prefeitura uma cópia do contrato de concessão firmado com a ViaRio para averiguar se a empresa deve arcar com parte da responsabilidade nessa questão. A sugestão foi do advogado Rafael Kullmann, presidente da Comissão Especial de Segurança Pública da OAB-Barra.
— Quando recebermos o contrato, vamos unir uma equipe multidisciplinar para estudá-lo — disse.
O gerente de Comunicação e Marketing da ViaRio, Nicolau Maranini, garante que tudo o que cabe à concessionária em termos de segurança está sendo cumprido. Ele explica que a área sob concessão é monitorada por 110 câmeras 24 horas por dia e tem um Centro de Controle Operacional (CCO) que acompanha o trajeto dos veículos ao longo de 13 quilômetros. E acrescenta que em cada lado da praça de pedágio foi construído um posto onde ficam PMs do BPVE:
— Caso alguma autoridade policial deseje vir ao nosso CCO para ficar monitorando as placas dos veículos, será bem-vinda, pois temos o maior interesse em colaborar.
No dia em que a equipe do GLOBO-Barra percorreu a via, sem comunicar à concessionária ou à polícia, avistou dois carros do BPVE e uma blitz da PM na alça de acesso à Avenida Brasil.
OBRAS NO TRECHO DA PREFEITURA
A Transolímpica é um legado dos Jogos Olímpicos. Construída a um custo de R$ 2,2 bilhões (sendo R$ 520 milhões financiados pela concessionária, como contrapartida), tem 26 quilômetros de extensão e percorre 11 bairros entre a Avenida Brasil, em Marechal Deodoro; e a Avenida das Américas, no Recreio.
Destes, 13 quilômetros entre a Avenida Brasil e o Viaduto de Curicica, em frente à comunidade Asa Branca, são de responsabilidade da ViaRio, que pode explorar o trecho pelos próximos 35 anos. Nesta área, não há sinais de trânsito, e o limite de velocidade é de 80 quilômetros por hora. Se um carro ou ônibus do BRT enguiçar ali, é a concessionária que faz o resgate. Para ter os serviços, o usuário paga um pedágio de R$ 5,90 cada vez que cruza a cancela.
O fotógrafo Roberto Sílvio Paes de Oliveira tem se beneficiado deste trecho da Transolímpica. Ele mora na Taquara e costuma ir a Curicica todos os dias, num trajeto de cinco minutos. Antes, levava 15, passando por dentro de condomínios. Como mora num raio de dois quilômetros da praça de pedágio, Oliveira é um dos 13 mil cadastrados que não pagam para circular na via.
— A via melhorou muito a vida de todos aqui. É muito mais prático, mas, se eu tivesse que pagar o pedágio, seria complicado — ressalta.
Os 13 quilômetros restantes ficam na Avenida Salvador Allende, entre o Viaduto de Curicica e a Avenida das Américas, onde está sendo construído o Terminal Recreio do BRT. Neste trecho, com sinais de trânsito e cruzamentos de veículos e pedestres, a responsabilidade de manutenção e de assistência é da prefeitura.
Nele ainda há obras em cruzamentos e está em construção uma alça de acesso à Avenida das Américas, o que incomoda o engenheiro de telecomunicações Arthur Skinner Neto. Para pegar a pista lateral da Américas no sentido Centro, ele precisa acessar a Avenida Alfredo Balthazar da Silveira e fazer o contorno na Rua Odilon Duarte Braga, num percurso de quase dois quilômetros. A previsão da Secretaria municipal de Obras é que a obra seja entregue até dezembro.
— A minha questão é: por que se cobra pedágio de algo que não está finalizado? Para mim, pouco importa se metade da Transolímpica está sob concessão ou não. O fato é que a obra está inacabada e de alguma forma estamos pagando por isso, seja indiretamente, com os nossos impostos, ou compulsoriamente, com o pedágio — reclama Skinner.
Da parte da ViaRio, uma preocupação são as construções irregulares que começam a crescer ao longo da Transolímpica, como O GLOBO-Barra vem mostrando desde 2014. A dificuldade de identificar o problema, aponta Maranini, é que a área de domínio da concessionária não é linear. A pista fica entre três e dez metros de distância de margem, dependendo do trecho. Nas outras rodovias, diz, o padrão é de 15 metros.
— A fiscalização fica mais difícil, mas fazemos levantamentos constantes e passamos relatórios para as subprefeituras da Barra e da Zona Oeste — afirma.
A Secretaria municipal de Urbanismo confirma que já recebeu demandas das subprefeituras para averiguar possíveis irregularidades. Em nota, esclareceu que faz fiscalizações mediante vistorias ou denúncias recebidas pelo 1746, que devem, no entanto, conter endereço completo do imóvel do qual se reclama.